Penis prá que te quero? – um ensaio sobre a psicologia masculina citando Ronaldo Pamplona da Costa

O texto que postei mais abaixo, é, na minha opinião, um dos melhores ensaios sobre Psicologia masculina que conheço. É um texto antes de tudo muito simples. Na minha profissão, como psicólogo clínico e professor/formador de profissionais na área da psicoterapia, educação, saúde; relações com o trabalho e no trabalho; sempre andei buscando bons estudos sobre o tema e não encontrava quase nada que me satisfizesse.

No início de 1986, um grupo de escritores, psicoterapeutas, sociólogos, médicos, pensadores lançaram pela Editora L&PM de Porto Alegre o livro “Macho, masculino, homem”; obra essa que semeia no Brasil, a 1ª tentativa de abrir as comportas tão fechadas e nubladas de uma Psicologia Masculina Brasileira. Sinto, como homem e psicoterapeuta, com uma quilometragem rodada de 35 anos nessa profissão, que nós homens nos conhecemos bem menos que a mulher se conhece. E a mulher nos conhece bem menos que ela pensa e acha que nos conhece.

O breve texto que se segue, do psicodramatista Ronaldo Pamplona da Costa, é de uma riqueza, de um “sopitar” de questões das quais não pensávamos, não tínhamos coragem de pensar e muitas delas pensávamos com a pequenez gerada pela orquestração do preconceito e a história do que é ser homem num país colonizado, católico, empobrecido, machista latino-americano etc.
Como o autor é psicodramatista, ele se utiliza de uma técnica comum nessa abordagem terapêutica que é se colocar no lugar do outro, assumindo “teatralmente” essa posição. Ronaldo então, se colocará no lugar de muitos homens, vários homens, vários universos masculinos. Trabalho com esse texto desde 1986 e minha experiência com ele sempre foi inusitada, surpreendente, pois a reflexão que ele traz provoca tudo isso. Meu objetivo ao postar esse texto é criar reflexão, diálogo, trocas entre as pessoas: homens e mulheres; possibilitando-nos inclusive compreender que não sabemos tanto assim um do outro como pensamos.

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“Anos atrás, resolvi fazer uma palestra sobre “identidade masculina”. Há algum tempo o tema me intrigava. Saí à cata de bibliografia em português. Surpresa: não encontrei nenhum livro sobre o assunto escrito por homem. Surpresa maior: encontrei 4 ou 5, escritos por mulheres, abordando o tema Homem sob diversos ângulos. Fiquei ainda mais intrigado, e comecei a observar e a refletir. Todos os meios de comunicação de massa têm um espaço específico para a mulher, feminista ou não. A Cinderela americana (livro : Complexo de Cinderela*) aportou por aqui e ficou mais de um ano na lista dos livros mais vendidos. São livros, debates, congressos, programas de rádio e TV, estudos científicos, teses e mais teses- e até delegacias de polícia- tudo sobre ou para a mulher. No Brasil (em 1985*) existem mais de 180 grupos feministas catalogados. As mulheres respondem tudo ou quase tudo sobre elas e muito sobre nós. Sentados à beira do caminho, ficamos olhando, há mais de uma década (1985*) a luta do mulherio em busca de sua libertação. E nós? O que estamos fazendo?
Acho que não precisamos fazer nada: o poder, em termos sociais, está praticamente todo em nossas mãos. Afinal, foram 20 anos de ditadura machista que nos auxiliaram a garantir um espaço mais amplo e seguro-sem contar os séculos anteriores. Em casa quem manda, ainda que pró forma, somos nós. Das crianças elas cuidam, senão a gente põe uma babá ou vão para a creche. No sexo, tudo resolvido, umas coisas se faz com a patroa, outras lá fora. A Constituinte (promulgada em 1988, em 1985/86 estava no auge da elaboração) é nossa. O futebol é nosso. A representação política dentro e fora do país é nossa. Então, para que se preocupar com esse papo de feministas? É. Mas às vezes eu fico pensando e, por enquanto, só pensando. Como será que eu sou por dentro? Como será minha alma? Por que o mundo colocou tanto peso nas minhas costas e eu deixei? Eu queria tanto conversar algumas coisas com os amigos, mas não me sinto à vontade. Companheiro, como é, para você, ver as mulheres falarem tanto sobre nós? Será que elas estão certas? Tenho tantas dúvidas!!!! Mas quando a gente se junta só dá para falar de futebol, de mulheres alheias, de conjuntura política, da dívida externa, e da cotação do dólar.
Falar com você, companheiro, sobre os nossos sentimentos masculinos, não dá mesmo.
Como será que você se sente quando está sem vontade de fazer amor e o faz só por obrigação, para não decepcionar a companheira?
Como é para você, masturbar-se às vezes só por ansiedade, e não poder contar nem para a sua mulher?
Como você se sente quando a ereção não vem?
E quando a gente tem que parar de acariciar, abraçar e pegar a filha no colo, porque ela está ficando mocinha? E com o filho? Também não é a mesma coisa?
Você percebe o seu corpo? Se acha bonito ou feio? Você achou outro homem bonito? Como é que você se sente com seu pênis? Se for pequeno, ele o envergonha? Você o esconde? E suas nádegas? Como você as sente? Eu fico até sem jeito de querer saber essas coisas….
Se fôssemos juntar tanta coisa num homem só, possivelmente sairia isso (se ele não mentisse): – Eu já espanquei minha mulher, porque não aguento a idéia de outro homem por perto. Cheguei a matá-la. Uns dizem que é por amor, outros que não. Mas, eu mesmo não entendo nada.
-Às vezes eu choro, mas sozinho. Tem vezes que eu tenho vontade de te abraçar, companheiro, e ficar assim sem dizer nada ou, então me enroscar e ficar no teu colo, como se fosse o colo do pai que nunca tive. Mas eu tenho medo, vergonha, e não tenho nem coragem de admitir essa necessidade ou desejo.
-Se você soubesse como é duro não poder perder nunca! Em nada.
-Às vezes eu até passo você prá trás, ou o uso como degrau, mesmo você sendo meu amigo. Eu não posso ser fraco.
-E se eu sou homossexual, será que continuo sendo homem?
-Se sou branco e você negro, eu me acho superior! E será que sou mesmo? Você se sente inferior por ser um homem negro?
-Se sou velho, sirvo para alguma coisa?
E se tenho uma deficiência física? Como fico como homem?
É tanta solidão! É tanta dor! É tanto medo de amar e de me entregar, que nem sei, companheiro!”

Ronaldo Pamplona da Costa

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Sobre Hercoles Jaci

Psicólogo desde 1980...Professor e psicoterapeuta...
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7 respostas para Penis prá que te quero? – um ensaio sobre a psicologia masculina citando Ronaldo Pamplona da Costa

  1. Sávio disse:

    Gosto desse texto e o uso como referência quando trato do assunto em sala de aula. Obrigado Hercoles..Sávio Cordeiro- Crato-Ce.

  2. magda margarida de alcantara disse:

    Penso, agora,depois de ler e refletir sobre esse texto,que, nós, mulheres,batalhamos,levantamos bandeira exaltando o feminismo (que foi de suma importância claro)e falhamos em entender profundamente,o que é se colocar no lugar do outro.Muito obrigada por me proporcionar conhecimento.abraço; Magda Margarida- Nova Lima- Minas Gerais.

  3. JOSÉ MARIA CAMPOS disse:

    Este ensaio é inédito entre nós, Hercoles. De fato, ele permite que acordemos para o fato de que nunca conseguiremos ser o “homem” que a sociedade espera de nós e, por isso , morremos de vergonha! É hora de virar homem…
    Abraços
    José Maria Campos- Belo Horizonte-MG.

  4. Tania Maria Varela Lopes disse:

    Nossa, que texto, cala na alma. Quantos questionamentos que nos fazem pensar. Excelente!-Tania Vareda

  5. Excelente e profunda reflexão! Adorei!Ana Paula Alonso

  6. Leonardo Calou disse:

    Nossa “companheiro” muito bom o seu texto, reflexões instigadoras que nos levam para além da discussão do gênero, mas até os sentimentos são reconhecidos aqui, muito bom mesmo, levando suas reflexões para outros refletirem … obrigado; Leonardo Calou

  7. Dagma Regina M. Rabêlo disse:

    Você acaba de ganhar mais uma leitora assídua dos seus textos!! Obrigada por cada palavra para reflexão! Dagma Rabelo- Goiânia-GO.

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