Re-inventando-nos, acessando o original

Desfazendo um desenho interno obsoleto, des-programando; des-condicionando… Re-inventando-nos, acessando o original.

Depois de muita “auto-escarafunchação”, idas e vindas, recaídas sobre os mesmos padrões e mecanismos internos, a gente pode perceber um dia, que, o que nós aprendemos como certo e sinalizador das nossas vidas parecem se eternizar….Como se encardissem, grudassem, criassem uma segunda natureza em nós; obscurecendo o nosso eu verdadeiro.

Com auto-observação, psicoterapia, com o próprio amadurecimento, nos damos conta de que, palavras ditas, procedimentos de como agir, o que ser e desejar , fixam-se e nós , às vezes, com repúdio, percebemos que somos, apesar de termos feito tudo o que fizemos; reféns desse esquema. Já não existimos mais, são nossos adestramentos familiares/sociais que existem em nós. Somos bombardeados, inconscientemente, por desejos frustrados e traumas dos antepassados, que insistem em criar realidade através de nós. Na nossa infãncia e adolescência esse treinamento é forte e, muitas vezes, nos rebelamos pensando que estamos nos protegendo, cuidando do que somos de verdade, porém mais tarde, percebemos que é mais um engodo; pois rebelamos tendo como referência o ensinado, fizemos apenas um contraponto, somos antagonistas de um protagonista chamado “o que você deve ser, assim será seu papel, aqui estão seus desejos e conduta, siga o  manual para ser amado e inserido”.

É tão difícil transitar nessa linha tênue, de ter uma adaptação saudável no seu meio familar, social e a de preservar uma fidelidade com o mais profundo dentro de si mesmo, com o mais genuíno, com o que os orientais chamam de ser interno, ser essencial, ser espiritual; nossa porção eterna, não produzida por esse condicionamento. É o que a sabedoria sufi chama de “estar no mundo sem ser do mundo”.

Os manuais “para ser feliz/para ser alguém” ecoam ao nosso redor o tempo inteiro: “Você tem que sonhar e pensar grande”; “Você tem que planejar seu futuro”; “Você tem que malhar”; “Você não pode ficar para trás”; Você tem que casar, construir família”; “Você não pode se acomodar, você tem que sair da zona de conforto”; “Você tem que ser o melhor da sua profissão” ; “Jovens, vocês têm que ser “bam-bam-bam” em Inglês, informática, mandarim, com os corpos sarados e barriga de tanquinho” ; ” Uma mulher sem um companheiro não é nada”; “Se você não colocar uma prótese de 250 ml em cada peito, você não vai abalar nas baladas”, etc, etc.  Até que um dia, para alguns, mais privilegiados, a angústia chega, e se sua sorte fôr tamanha, ela chega inteira, te parando para perceber como sua nutrição do essencial é nula; sua alma tem tomado sopa de isopor e sem sal. Essa angústia é, de fato, uma benção disfarçada, é um pedido de socorro da alma. Sua interioridade, sua parte genuína está desnutrida, anoréxica, não há energia e atenção canalizada para ela; você está todo (a) externo (a), atendendo à pedidos e obedecendo a esse dogmático manual de pertencer ao mundo e abdicar de si mesmo. E, que já não precisa mais de vozes externas, pois o cochicho do mundo já foi introjetado, automatizado. A isso chamamos de condicionamento, programação.

Lembro-me de uma diversão muito comum em festas juninas da minha infância, chamada pescaria. A pescaria, era um tanque cheio de areia com um monte de argolinhas parcialmente enterradas com um brinde abaixo. A gente com uma varinha de pescar tentava com o anzol pegar a argolinha e puxar para ver o que nos cabia de prêmio. Essa visão da pescaria com uma argolinha que traz abaixo uma prenda; eu metaforizo com nossos sofrimentos. Se cada um de nós “pegar” e focalizar um ou mais sofrimentos que nos acomete no nosso momento atual, perceberemos que por detrás dele(s) há um apego, um condicionamento, há uma aprendizagem imposta. Podemos estar sofrendo agora porque um filho não passou no vestibular ; está lá impetrado em nossa mente: “Seu filho tem que passar no vestibular, na faculdade tal, no curso tal, na mesma faculdade do filho da sua amiga tal..” Ou eu estou sofrendo porque estou sozinho(a) e gostaria muito de ter alguém, de compartilhar uma vida a dois, dividir minhas angústias e alegrias, queria tanto minha outra metade, minha alma gêmea”. E quando vamos examinar essa argolinha (sofrimento), a gente percebe a prenda ( a causa, o que foi inculcado em nós como verdade) por detrás dela: “Você só poderá ser feliz tendo alguém, você sózinho é meia pessoa”. Que coisa absurda essa idèia de outra metade, alma gêmea, é uma negação profunda do ser, da inteireza, da solitude, do eu real ; fixando e defendendo a idéia de que se eu morar ou viver só é muito ruim; disseminando a crença de que a própria companhia é insuportável, principalmente que somos seres partidos e a outra parte está fora. É um doutoramento em esquizofrenia; em cisão interna!!! Ou seja, as crenças não reavaliadas, aquilo que eu engoli e fiz fazer parte de minha “constuição interna”; o que eu introjetei como verdade (tudo isso para sobreviver, ser aceito e inserido) são hoje grande parte de nossas armadilhas, nossos entraves, nossos encarceramentos. Des-programar é difícil; porém NECESSÁRIO/VITAL. Por isso uma leitura cada mais vez mais apurada das nossas motivações internas é que vai nos dar o tom, para que possamos retomar o leme de nossas vidas, podendo ser, passo a passo, protagonistas únicos de nossa jornada. Dentro desse contexto da necessidade de “reiniciar”, des-programar a nossa direção interna, recordo-me de uma frase de Rumi, um místico sufi persa que viveu no séc. 13, que diz: “Fiz o que os outros disseram e fiquei cego. Vim quando me chamaram e me perdi. Então deixei a todos e também a mim, para encontrar a todos e também a mim”.

Com a morte de Steve Jobs, acontecida há poucos dias, sua história, que é a de um ser humano vitorioso, que foi testado duramente do nascimento até a sua passagem; nos permitiu apreciar uma pessoa que foi fiel a si mesma durante todo o seu tempo. Ele, que foi um dos responsáveis por todo o progresso virtual que hoje usufruimos, foi diagnosticado com um câncer incurável em 2004 e durante 7 anos lutou bravamente. Em 2005, num discurso como paraninfo dos formandos em Administração da Universidade de Stanford, dentre outras coisas, disse:” O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém. Não fique preso pelos dogmas que é o viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e intuição. Eles, de alguma forma, já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.”

Osho, Bhagwan Shree Rajneesh, mestre indiano que “partiu” em 1990, dizia frequentemente em suas palestras: “Toda nossa vida deveria se resumir em buscar, reconhecer, contatar nossa face original, aquela que tínhamos antes de começar toda essa confusão”

Sintetizo com a sabedoria fina e a arte literária de Marina Colassanti, que com seu conto:”A moça tecelã”, vem ilustrar lindamente o que vimos refletindo aqui; o tecer e o des-tecer; o programar e o des-programar….

“Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.

Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

- Uma casa melhor é necessária, — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

- É para que ninguém saiba do tapete, — disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.”

Ilustração do maravilhoso livro infantil (?) "O Equilibrista" de Fernanda Lopes de Almeida/Fernando de Castro Lopes

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8 respostas para Re-inventando-nos, acessando o original

  1. Incrivel Hercoles…minha alma agradece à sua alma….

    Lindo!!!

    Grata por compartilhar! Denise Carvalho-São Paulo-SP.

  2. Margarita Ripoll disse:

    Oi Hercoles! Maravilhoso texto!
    Estava justamente pensando sobre esta questão tão profunda e essencial que é o “garimpo de nós mesmos” quando recebi o aviso ta tua postagem!
    Muito grata pela tua sensibilidade e sabedoria,
    Margarita Ripoll-RS

  3. Iris Goulart disse:

    Hércoles, li atentamente seu texto. Lindo!!!! De uma sensibilidade que só você é capaz de ter. Mas como é difícil nos livrarmos das normas que nos impuseram, dos desejos frustrados de nossos antepassados tornados realidade em nós. Grata por escrever mensagens tão lindas! Um abraço grande e carinhoso. Iris Goulart- Belo Horizonte-MG.

  4. Hércoles, brilhante teu texto. Ainda outro dia eu dizia:-acho que nos obstáculos da vida chorei pouco, reclamei pouco, sofri pouco. Agora com a “passagem” de meu esposo, desabei! E é incrível como as pessoas só me enxergam FORTE, como se eu estivesse rotulada a viver como uma ROCHA. Estou trabalhando interiormente exatamente todas as questões que citastes, estou me sentindo bem melhor e te agradeço por dividir tanta SABEDORIA. Abraço, Magda Perez- Porto Alegre/RS.

  5. Vera O´Neill disse:

    Hércoles, o brilho da sua alma, toca a luz da minha. Obrigada por trazer esta confiança de volta para minha vida, de que há esperança e luz no caminho a ser seguido pela minha alma. Beijos e abraço com carinho. Vera O’Neill- Portsmouth-England

  6. Marina Colasanti disse:

    Caro Hércoles Jaci,
    Que achado ótimo você utilizar aquela pescaria para falar das ansiedades/desejos-ocultos de cada um. Eu, nessa pesca do parque de diversões, não pesquei nada que prestasse. Em compensação, depois, em 11 anos de análise, dei bom significado ao anzol.
    Obrigado pelo texto, e por utilizar meu conto.; Um abraço; Marina Colasanti-Rio de Janeiro-RJ.

  7. Lyeden Prosdocimi disse:

    Hércoles,
    Parabéns pela linda forma de colocar as questões da vida. O texto nos ajuda a olhar de fora o nosso castelo construído e a nos questionar sobre ele.
    Um beijo,
    Lila Prosdócimi– Belo Horizonte – MG

  8. Ana Liése disse:

    Hércoles, querido,
    Como sempre, de modo tão coloquial e direto, vc vai na essência da questão, revelando a sopa nutritiva da qual a nossa alma tem fome.
    Fazer a desconstrução do ego, retirando as artificialidades, é dos trabalhos internos talvez o meis desafiador.
    Obrigada por tudo, de novo.
    Ana Liése Leal.-Salvador-Ba.

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